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Face à incapacidade que o Município sentia de organizar por si só um corpo de bombeiros, solicitou a cooperação das companhias que possuíam muitos prédios segurados em Setúbal, por serem estas as mais interessadas no combate aos incêndios. No entanto, os seus proprietários não corresponderam como seria de esperar.

No dia 19 de Outubro de 1883, Álvaro José Baptista convidou Henrique Augusto Pereira, o mais importante industrial da cidade, o vereador Joaquim José Corrêa, responsável pelo pelouro dos incêndios, e António Avelino da Silva, promotor das Festas de Nossa Senhora da Arrábida, para uma reunião com Artur Mena, comandante dos Bombeiros Voluntários do Beato, em Lisboa, que resolveram fundar uma Associação de Bombeiros Voluntários para suprir as dificuldades que a edilidade possuía para responder às solicitações de lutas contra o fogo. Ofereceram uma excelente bomba para extinção de incêndios, os respectivos utensílios, e puseram à disposição da corporação o pessoal de suas fábricas, pelo que lhes foi pro-posto pelo presidente da Câmara um voto de louvor, unanimemente aprovado e regista-do em acta. Era a génese da Associação de Bombeiros Voluntários de Setúbal, fundada no ano de 1884. Após o jantar, Manuel Maria Portela, seu filho Alfredo Augusto Portela e Joaquim Caetano da Veiga juntaram-se ao grupo dos cinco e, juntos, proclamaram-se sócios fundadores da Associação. Do facto foi lavrada uma acta, redigida por Joaquim José Corrêa, na qual ficou registado o apoio prometido pelo vereador.


No dia 22, a Comissão Instaladora efectuou uma reunião na sede do Clube Dramático, com a presença de outros entusiastas, tendo dela saído um grupo de trabalho para redigir os Estatutos. Era constituído por Henrique Augusto Pereira, José Manuel Corrêa e Artur Mena, sócio honorário.

Os corpos gerentes ficaram constituídos da seguinte forma:

  • Assembleia Geral: Augusto W. Grill, presidente; Venâncio Olímpio Ferreira Torres, vice-presidente; António Pedro Cardoso Júnior e Joaquim Patrício Frissel, secretários.
  • Direcção: Álvaro José Baptista, presidente; Joaquim José Corrêa, vice-presidente; José Manuel Corrêa e Eduardo A. Soares Rosa, secretários; João Guilherme Pereira, tesoureiro; João José Pereira e João José Freitas Pereira, vogais. Henrique Augusto Pereira ficou como comandante da corporação.

Num apelo aos comerciantes e indústrias para que se inscrevam na associação, informam que os futuros bombeiros já estão a receber instrução na Praça de Touros S. João, sob a orientação de Artur Mena.
Os estatutos foram aprovados no dia 6 de Dezembro. Foram tomadas várias iniciativas para angariação de fundos, tendo sido decidido, na assembleia-geral do dia 6, criar uma banda de música, embora a cidade contasse já com as filarmónicas Capricho e Firmeza e com a banda regimental de Caçadores 1. O projecto era por demais ambicioso, dada a precária situação em que se encontravam. Assim, a banda passou a «fanfarra» e desta apenas a «charanga», nos finais de 1884.
Como os instrumentos eram caros, foi aberta subscrição pública, tendo a Companhia de Seguros Fidelidade oferecido 100$000 réis, metade do seu custo. O resto, outros 100$000 réis, foram oferecidos pela seguradora Norwich Union. As fardas foram feitas pelos membros da «charanga».
Os exercícios simulados sucederam-se mas, rapidamente os novos bombeiros se viram confrontados com os fogos reais. No dia 27 de Janeiro foram chamados para apagar um incêndio na Travessa Francisco pereira e, no dia 4 de Fevereiro, na Rua Direita de Troino (hoje Fran Paxeco), zona degradada da cidade.
A 6 de Março de 1884, a assembleia-geral reuniu para aprovar o relatório e contas de 1883 e dar posse aos novos corpos gerentes. Era presidente da mesa da assembleia-geral o Dr. Francisco Ayres do Soveral e presidente da direcção Augusto W. Grill.
No dia 9 de Março, pelas 12h30, teve lugar, na sala de sessões da Câmara Municipal, uma cerimónia de congratulação pela instituição desta benemérita Associação, seguida da inauguração do quartel e de um exercício desenvolvido pelo corpo activo. Em todas as cerimónias foi tocado o hino da Associação, composto por António José Camacho Júnior, mestre da banda de Caçadores 1.
Na sessão de câmara foram proferidos discursos, sendo os principais oradores o Dr. Francisco Soveral, o republicano Paulino de Oliveira, jornalista, escritor e membro do corpo activo dos bombeiros, e o progressista Campos Rodrigues, jornalista e professor do Liceu. No quartel foi descerrado o emblema da Associação, pintado pelo célebre pintor setubalense Augusto Flamengo. As cerimónias terminaram na sala do Clube Dramático, onde cerca de 100 senhoras ofereceram um baile aos bombeiros, na sua maior parte filhos das melhores famílias setubalenses.
Mas, de imediato, começaram as contendas. A Câmara mantinha o seu serviço de incêndios, muito pouco eficaz, como se pode verificar pela imprensa da época, enquanto os bombeiros voluntários tentavam resolver os problemas. Mas as querelas políticas não se fizeram esperar, mesmo quando estava em jogo a vida da população. Os debates, agravos e contra-agravos sucediam-se nos jornais, conforme o partido político que os dominava.
Também no interior da Associação começaram as divergências, acompanhadas de alguns pedidos de demissão dos cargos ocupados. Em 1855 houve necessidade de se fazerem duas reuniões da assembleia-geral para eleição dos corpos gerentes, embora na primeira tivesse sido aprovado o relatório e contas de gerência de 1884. Neste relatório, que apresentava um saldo de 175$000 réis, salientava-se que uma das «bombas» era dos sistemas mais aperfeiçoados que então existia. Mas a água continuava a faltar, facto que prejudicava o bom funcionamento do corpo de bombeiros. Este precioso líquido era ainda vendido em pipas, por Manuel Neto e Joaquim José Corrêa, que o iam buscar à Abegoaria.

Em 15 de Agosto de 1885 foi inaugurado o Clube dos Bombeiros Voluntários, com um baile no salão do Clube Dramático, sito na Rua das Amoreiras, N.º 12.
O quartel dos Bombeiros Voluntários esteve instalado, durante muitas dezenas de anos, no imóvel onde funcionara o hospital de Nossa Senhora da anunciada (hoje Paço Episcopal). Ali permaneceu até 1983, ano em que foi inaugurada a nova sede.

 

In «Monografia de São Julião», coordenação de Maria Conceição Quintas, edição da Junta de Freguesia de São Julião, 1993